Resumo
Esta dissertação tem como proposta a apresentação de um estudo de caso único da associação sem fins econômicos de assistência social a “Liga das Senhoras Católicas de São Paulo”. Este estudo partiu inicialmente do interesse em poder verificar o papel das associações filantrópicas que atuam no campo sócio assistencial, diante dos novos problemas sociais da sociedade contemporânea. O acelerado processo de globalização que vem ocorrendo a partir do século XX e inicio do século XXI, tem acarretado transformações significativas nas relações sociais, políticas e econômicas em todas as sociedades. Neste novo cenário observa-se a emergência e relevância das associações sem fins econômicos nos espaços públicos. No Brasil a grande maioria dessas associações data dos primeiros períodos da nossa colonização sendo fortemente marcadas pela influencia da Igreja Católica e por praticas filantrópicas. Assim procurou-se verificar se é possível uma associação centenária criada pela Igreja Católica avançar em suas praticas e ações para caminhos que levem em direção ao reconhecimento dos direitos de cidadania. Como objetivo geral do estudo procurou-se verificar os requisitos nas ações da associação que identifiquem a passagem do exercício da filantropia para o reconhecimento da cidadania. Como metodologia adotou-se um estudo de caso único, por meio da utilização dos instrumentais de pesquisa como análise documental, observação direta, entrevistas com gestores, técnicos, parceiro e usuários da entidade e professores que estudam o tema. Como conclusão pode-se constatar que a associação no decorrer das diferentes fases da história do Brasil vem se transformando gradativamente. Após o período de redemocratização do Brasil dá-se inicio uma nova fase na associação por meio de mudanças mais significativas no campo dos direitos de cidadania. Nos últimos nove anos (1998-2007) constatou-se as mudanças mais significativas em todas as áreas, desde a administrativa até a condução dos objetivos dos programas sociais.
Leia na integra o trabalho de Márcia Moussallem
ASSOCIAÇÃO PRIVADA SEM FINS ECONÔMICOS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL: Entre a Lógica da Filantropia e do Reconhecimento da Cidadania. O Caso da Liga das Senhoras Católicas de São Paulo
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Uma instituição filantrópica que se chama Liga das Senhoras Católicas é uma relíquia? Vejamos o estatuto de 1923, que lhe deu nascença: A Liga fundará, quando o permitirem as circunstâncias, uma casa de providência para proteger “as moças infelizes e inexperientes da vida que nesta, como em todas as grandes cidades, tombam todos os dias vitimas precisamente daqueles que se lhes deparam como protetores no seu infortúnio”. O que acontece com uma instituição deste tipo no vendaval da modernidade, do botox, do silicone e da prostituição pela internet?
Márcia Moussalem foi ver, analisou e pesquisou o que acontece com uma instituição que se defronta com a comunicação de massa e outras tecnologias, ao mesmo tempo que o pano de fundo da desigualdade e da exploração se mantém pouco diferente, talvez até mas grave. Na realidade, a pobreza é seguramente mais ampla, diversificada e violenta. Os desafios são basicamente os mesmos, enquanto a herança da cultura organizacional tem sólidas raízes na caridade cristã de antigamente. Como navega esta caravela de outros tempos entre gigantes tecnocráticos de fundações corporativas que praticam o bem com sólido acompanhamento das avaliações de impacto sobre a imagem empresarial e o valor da marca? Márcia fez a lição de casa, escreveu de forma clara e cuidadosa um trabalho muito interessante de como uma instituição se reinventa, se transforma e se atualiza. As senhoras católicas, pela imagem que emerge, estão ficando bem para a frente, por assim dizer.
Vale a pena abrir um pouco o horizonte. Com os dramáticos desafios planetários (aquecimento global, esgotamento dos recursos, contaminação do planeta, 4 bilhões de pessoas à procura do seu lugar – o Banco Mundial diz que não têm acesso aos “benefícios da globalização”), o desafio não é apenas para a filantropia. O mundo empresarial, tecnologicamente e financeiramente poderoso, encontra-se de outra forma também na pré-história, correndo atrás da chamada Responsabilidade Social Empresarial, tentando resgatar a sua imagem social e ambiental. Estão saindo da visão filantrópica, descobrem que o pobre é um cidadão privado dos seus direitos, e não um humilde pedinte. As discussões sobre o Estado evoluem igualmente da visão paternalista e assitencialista para uma compreensão moderna de se colocar ao serviço de políticas cidadãs, na linha do Estado articulador de atores sociais. Emerge gradualmente uma visão decente da democracia.
O fato é que a LSC está dando a volta por cima, atualizou tanto os estatutos como as práticas, participa nesta busca de políticas sociais decentes que todos queremos construir. O trabalho de Márcia é muito sólido em termos teóricos, e soube trazer, através de pesquisa e entrevistas, toda a dificuldade da construção de uma nova cultura organizacional.